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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Resenha do Livro Trânsito de Vênus


O Trânsito de Vênus
Shirley Hazzard

Ao ver a capa deste livro, seu título, podemos pensar que é uma história de amor no estilo das novelas mexicanas.
Porém, ao transpor as primeiras páginas, ao acompanhar a vida dos personagens, vemos a maestria da autora. Ela apresenta a vida sob um aspecto diferente da forma como estamos acostumados a ler nos romances, e que não reparamos por estarmos mergulhados na rotina da vida.
O começo pode parecer um tanto quanto confuso, até acostumarmos com o nome das três personagens principais.

A mais velha, Dora, têm o hábito de se queixar de tudo, pregar que a única solução viável é a morte. A causa disso é que as três irmãs perderam seus pais muito cedo, e Dora teve que assumir toda a responsabilidade. Não é fácil para um jovem aceitar as abnegações que as responsabilidades dos pais causam. A forma que Dora encontrou para superar suas frustrações foi a da raiva e das constantes imprecações contra a vida.
Dessa forma, as duas irmãs mais novas formam uma unidade para superar esse novo estilo de vida.
 A irmã do meio, Grace, é a personificação da gentileza, da aceitação e também da abnegação.  Ela é o exemplo daqueles que aceitam tudo o que a vida lhes oferece, sem se perguntar se merecem, realmente, o que receberam. Seus cabelos louros, pele clara e olhos claros realçam sua personalidade.
A terceira irmã, Caro ou Caroline, é a mais nova e também a que possui a personalidade mais forte. Seus cabelos negros e olhos negros realçam seu aspecto de força e plenitude interior. Ela é o tipo de mulher que pode assustar muitos homens por seu olhar e atitudes decididas.
A história começa com uma terrível tempestade, um prelúdio para o desenrolar sombrio do romance. É nos apresentado Ted Tice, um jovem cientista com um futuro promissor. Ele veio ajudar um velho cientista de renome, Sefton Thrale, a escolher um local na Inglaterra para construir o maior telescópio da Europa. Estão hospedadas na casa Caro e Grace Bell, Grace está noiva do filho de Sefton Thrale, Christian Thrale, que está viajando.

No momento que vislumbra o rosto enigmático e forte de Caro, Tice se apaixona por ela. É aí que começa o desenrolar próprio do livro. É mais uma história de contemplação, de vislumbres, que nos dão à formação mais detalhada dos personagens.
Estando completamente apaixonado por Caro, Tice começa o laborioso trabalho de conquistar esta mulher. Contudo, surge um novo personagem, Paul Ivory, um escritor ascendente, com aparência deslumbrantemente atraente, sedutor, sociável ao contrário de Ted, para disputar Caro.
    Paul consegue conquistar Caro e passa a dominar a sua vida. Paul Ivory é uma pessoa egocêntrica, egoísta, pensa apenas em seu futuro. A aparência é tudo.
 Tertia a noiva de Paul é um clássico caso da nobreza, olhos vazios com um quê de superioridade, frieza com os que ela supõe serem inferiores. Filha do Lord, dono do castelo, na colina em frente à casa de Sefton Thrale, para Paul uma forma de ascender socialmente.
Sempre vemos os ingleses serem retratados por pessoas de outras nações como um povo extremamente educado, frio, que esconde suas emoções por trás de um véu, pois elas são desnecessárias quando estamos em sociedade, elas são reservadas aos lares e mesmo neles, às vezes são deixadas de lado. Percebemos essa necessidade ao ler clássicos ingleses como David Coperffield, onde vemos as aparências escondendo emoções. O hábito inglês de tratar as pessoas apenas pelo sobrenome, é um exemplo disso. Tornamos-nos impessoais ao tratarmos as pessoas por Mr, Mrs, Miss. Por exemplo, Mr Thrale ao invés do primeiro nome Sefton.
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Quando Caro se apaixona por Paul ela deixa sua personalidade para trás, deixa-se dominar por um homem que necessita estar no controle. Paul abandona Caro quando ela ameaça sua estabilidade.
 É neste momento que a personagem de mais força do livro começa a ruir devido a um amor. O amor pode ser a mais bela forma de expressão, assim como pode ser também uma arma para destruir aqueles atingidos por ele.
Ela começa a trabalhar na repartição publica e a autora mostra, com sutileza, como os homens pensam que são superiores as mulheres. O chefe de Caro, Leabdetter, expressa seu desgosto por Valda, uma das colegas de trabalho de Caro, se recusar a levar café para seus chefes, pois era dever dela, mesmo não estando explicito no contrato, apenas por ela ser mulher. Vemos o conceito machista imperando de formas sutis ao longo da obra.

Neste período de sua vida ela encontra novamente Paul e recomeça um relacionamento às escondidas, devido à fama de Paul com sua peça e o fato de estar casado. Sua paixão por Paul chega uma nova esfera, onde ele passa a ser essencial para ela e vice-versa, uma vez que o casamento de Paul é quase que uma fachada.
Podemos perceber que o casamento é uma forma de parecermos estáveis para a sociedade, porém interiormente ele pode não significar nada. Tertia percebe que pode perder o marido para a amante e decide engravidar para fazer com que ele desista de Caro e permita que ela desfrute de sua monotonia com a tranqüilidade de ter um marido famoso.
Enquanto que a vida de Grace, a mais gentil das irmãs, se desenrola na paz do lar. Ela tem um casamento feliz, um marido com um bom emprego, arrumou três filhos. Porém quando olhamos mais atentamente para as casa, todas iguais, dos subúrbios ingleses vemos a dona de casa, a esposa, a mãe de família e nunca percebemos realmente quem está por detrás da cortina. Grace se sente parte da casa, apagada, uma mera mobília no meio das outras. Afinal depois de todos esses anos, sendo a mãe, a esposa, aonde foi parar sua individualidade?
Quem lhe faz despertar o verdadeiro sentido da existência é o médico que cuida de seu filho mais novo. Ela volta a ser uma jovem apaixonada sofrendo as peripécias do amor. Quando seu amor culmina e seu amado se declara, a moralidade dos dois faz com que achem aquilo impossível de se realizar. 
Porém seu marido, Christian já teve um caso com a secretária quando Grace estava viajando com os filhos. Neste caso de adultério percebemos porque eles são tão comuns em casais que estão juntos há muito tempo. Com o tempo surge a monotonia, a falta do real prazer em manter relações sexuais com o parceiro devido a um desgaste, a sensação de isto fazer parte da rotina. Quando surge alguém novo, é uma possibilidade de novas experiências, uma distração, gerada para quebrar a rotina. Quando se está casado há muito tempo, tem uma família, e é confrontado entre perder isto, a sua rotina diária, por algo novo, a amante se torna obsoleta.
Ao final do livro a paixão de Ted Tice por Caroline finalmente é recompensada, quando ela abre os olhos finalmente, para ver aquele que sempre esperou por ela.
Este é um livro que mostra que o pequeno Vênus pode, sim, encobrir o grandioso Sol. Nunca se sabe o que se esconde por baixo do brilho do sol.



Trânsito de Vênus
Autor: Shirley Hazzard
Editora: Círculo do Livro
Número de páginas: 402

2 comentários:

  1. É bom ter pessoas que se preocupam em indicar bons livros, existe uma carência quanto a isso. Abraços

    ResponderExcluir
  2. A Literatura vem sendo cada vez mais deixada de lado, mas atualmente ela é mostrada de forma a nos fazer pensar na história, refletir através de outras formas, como por exemplo pelos filmes, desenhos, séries, teatros. Tudo isso mantêm viva a literatura.
    Mas ainda assim nada substitui ler um livro.

    ResponderExcluir

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