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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Conto, Despedidas



Despedidas
A noite está tão bela, calma, suave, acariciando o mundo com o veludo da escuridão. A neve espalha-se pelo terreno, um manto que aparenta ter a delicadeza da seda, contudo esconde o gélido e suave toque da inanição.
As árvores estão tão diferentes, não há mais flores, relva, o perfume da primavera, nem o abraço reconfortante do verão, apenas o escárnio do inverno, sorrindo perante os seres congelados, os corações despedaçados.
Mesmo assim continuo perambulando, relembrando cada instante daquele tempo que nunca mais voltará. Em cada centímetro memórias são despertadas e o açoite do frio me faz sentir uma sensação de vazio, é como uma ampulheta quebrada, onde toda sua areia, seu tempo escoa para fora, desfazendo seu propósito.
O caminho para chegar a casa encontra-se bloqueado por montanhas de neve. Da casa uma pequena fumaça sobe aos céus, como um pedido aos Deuses pela dor que paira em todos os lugares. A neve não é empecilho, não em meu estado atual. Com tranqüilidade, com uma dor sem igual, continuei.
Parei em frente à porta, observando as aldravas, os dragões que escolhemos para guardar e avisar da vinda de estranhos, destinados a também guardar nosso maior tesouro, nosso lar.

A porta estava fechada, contudo novamente atravessei-a. Era tão grande a vontade de poder rever ao menos uma vez tudo o que amo, que a porta se abriu e a neve, o vento, varreram o calor para o interior da casa, incessantemente.
Fechei meus olhos, senti o lugar em que estava, meu lar. Abri os olhos e a primeira memória foi à primeira fez em que entramos por essa porta. O outono estava no auge, tudo estava tão belo.  Você me carregou no colo, abriu a porta e o vento encheu o corredor de folhas douradas, um tapete de recepção nos guiando para nossa casa, nossa vida. Você me carregava pelo corredor, acabou escorregando nas folhas, me derrubou próximo a escada, caindo em cima de mim. Rimos muito, nos beijamos, nosso primeiro beijo em nossa casa. Apoiamos nossas cabeças no primeiro degrau da escada, juntos observamos o pôr-do-sol pela janela. As folhas continuavam a cair, trazidas pela brisa, emolduradas pelos últimos raios dourados de sol. Era como se penetrássemos no mundo das fadas, onde os instantes são eternos.
Essa lembrança foi-se com as rajadas que adentravam pela porta, agora o sol se punha envolto em sombras e escuridão.

Continuo caminhando pela casa, procurando por você. Dirijo-me para o único cômodo ainda quente da casa. Lá está você sentado em nossa cadeia, de frente para a lareira, dormindo segurando o livro que até poucos instantes você lia, o nosso livro.
Ao me aproximar de você logo a cena muda. Lembro-me de outro inverno em que estávamos juntos. Eu estava sentado aos seus pés, nevava lá fora, nos aconchegávamos em uma única coberta, sobre suas pernas e meu corpo. Eu abraçava suas pernas como uma criança que pede abrigo e você calmante me beijou. Serviu chocolate quente, começou a ler para nós Contos eternos, nossos contos. Ouvíamos a lareira crepitar, esquentar nossos corpos, enquanto juntos aquecíamos nossos corações.
Esta cena também se desfez. Você permanecia dormindo, eu estava em sua frente, sem nada para poder fazer para dizer o quanto eu te amo, o quanto sofro por você. As janelas se abrem com o sopro forte do vento, a neve, ambos tomam conta de teu leito, meu amor. Não posso permitir que parta também.
Novamente outra cena se forma em minha mente. Era uma linda tarde de primavera, os pássaros cantavam, as flores se abriam. Fazíamos um pequeno piquenique em nossa casa, nesta sala. Estava um pouco frio, acendemos a lareira, espalhamos velas pela casa, mesmo estando de dia.
Nos sentamos nesta sala, colocamos uma linda toalha branca, para não manchar o tapete. Distribuímos nossas taças, uvas, morangos, tortas. Apenas sorríamos. Então fizemos um brinde a nós. Antes de levar a taça aos meus lábios ela caiu, lentamente, espalhando vinho por toda toalha. Junto com a taça eu também caí, e antes de fechar os meus olhos eu vi os seus. Antes tão felizes, sorridentes, parou a taça a poucos centímetros dos lábios e a dor os preencheu. Foi à última visão que tive. Meu amor, nunca quis te causar dor, me desculpe.
Meu corpo caiu, um filete de sangue escorreu de minha boca, espalhou-se pelo branco. Pude sentir seu gosto antes de meu coração parar de bater.
Você foi até mim, me pegou em teu colo e tentou escutar meu coração, porém já não podia mais ser ouvido. Você gritou, abraçou meu corpo desesperadamente como se pudesse me manter vivo com o pulsar de seu coração. Encheu-me de beijos, cada vez mais desesperado e a única coisa que encontraste foi um filete de sangue e meu olhar vazio.
De algum lugar você encontrou forças, me pôs em seus braços e carregou meu corpo para fora de nossa casa, assim como o trouxeste. Enquanto corria comigo, me levava, tentava me salvar, mesmo sabendo que já era tarde, o vento novamente soprou trazendo milhares de pétalas de flores sepultavam meu corpo.
A lembrança foi-se. Foi-se com tanta dor que causou. Mas assim como tu, Meu amor, tentaste me salvar, eu salvarei a ti.
Como não consigo fechar as janelas, trarei você do mundo dos sonhos. Reuni todas as minhas energias e as enviei ao meu amor. Que no mesmo instante despertou, não com a dor que sentira na última vez em que o vi, mas sim feliz, pois você sabia que eu estava contigo. Por um breve instante você pode me ver como as pétalas de nosso adeus. E também pude sorrir pata ti antes de partir novamente.


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Pallas

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