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sábado, 25 de fevereiro de 2012

Perdido em mim, Capítulo I

Este é o primeiro capítulo do conto Perdido em Mim, conforme os outros capítulos forem sendo escritos serem postados aqui os links para eles: Capítulo II, Capítulo III, Capítulo IV

A Ponte
 
Hoje está uma noite fria, início do inverno, ainda posso ver as últimas folhas do outono caírem, dançam em uma brisa gelada. Brisa que traz a neve. E não estou enganado. Logo os flocos começam a cair.
Uma noite tão estranha, não sei ao certo para onde vou. Já faz um tempo que estou perambulando por avenidas vazias, escuras, às vezes vejo um casal ou, espaçadamente, alguém voltando para casa. Ao contrário de mim todos parecem ter um destino, voltam para casa, para sua família, seu lar. Alguns marcam encontros, outros simplesmente encontram.
Aí me pergunto, e eu? Caminho sozinho, pensado em todas as noites, momentos, em que me via no escuro, mesmo com todas as luzes acessas, e não sabia de onde a escuridão surgia. Às vezes era como se sombras me perseguissem e por mais que tentasse me livrar delas, mais elas se aproximavam, uma espécie de perseguição sem fim.
Freqüentei muitos ambientes todos tidos como sagrados, onde eu via a fé nos olhos daquelas pessoas, mas a sua fé, não era a minha fé. O que lhes curava, para mim apenas causava mais dor. Então sempre pensava, o que há de errado? Por que sou assim? E nunca encontrei uma resposta.
Quantos rostos eu já vi, quantas palavras já ouvi e nada pode tocar meu coração. Ver a felicidade, sorrisos, pelo mais insignificante dos atos, apenas sorrir. Cada instante era uma eternidade e o que encontrava no eterno? Sombras, incertezas, dor.
Por isso, hoje, ao invés de me deitar em minha cama, olhar para o teto, tentar inutilmente dormir, me levantei e deixei meu corpo me guiar, guiar-me para além de meu reino, para o desconhecido.
Há um rio que corta a cidade, profundo, caudaloso, de correnteza alta. Ele cruza o centro do parque em que estou. Um espetáculo de rara beleza. Há noite luzes azuis iluminam o rio, fazem dele um ser sobrenatural, sedutor.
Para apreciar este espetáculo único, uma ponte de vidro foi construída. É como se andássemos sobre o próprio rio, liberdade, liberdade da própria terra, da humanidade.
Essa ponte se tornou minha amiga, companheira, aonde eu vinha para refletir, chorar. E agora meu corpo me trouxe para ela. Parei no meio dela, me sentei, observei o parque, eu era a única pessoa nele, depois fixei meu olhar no rio abaixo.
Como eu gostaria de ser como ele. Nascer tão pequeno, em lugares desconhecidos, e aos poucos crescer, correr pelo mundo, sendo apenas eu mesmo, seguindo apenas meu curso, me dirigindo para a imensidão, para o oceano. No caminho encontraria lindas paisagens, porém iria saber que nada é eterno, que aqueles poucos momentos em que eu ficaria com elas seria para mim mais que a própria imortalidade.
Infelizmente, não sou esse rio, não tenho sua liberdade, sua direção. Talvez eu não seja o rio, mas posso fazer parte dele.
Me levantei, tirei minha roupa lentamente, podia  sentir os flocos de neve acariciando minha pele, me trazendo lembranças de todos os momentos em que tudo o que senti foi a solidão, o frio. Não pude deixar de chorar. Chorar por tudo aquilo que ficava para trás. Mas eu finalmente pude entender o porquê de meu corpo me trazer até aqui.
Peguei as roupas, uma a uma joguei-as no rio. Quando meus olhos pararam de verter a dor da alma, subi no parapeito da ponte, senti o vento em meu corpo, que já não mais tremia pelo frio, mas sim pela expectativa da liberdade, da luz.
Fiquei parado do outro lado da ponte, encostado no parapeito, sentindo que finalmente as sombras deixariam de existir. Sob meus pés apenas o rio, a liberdade.
Fechei meus olhos e me entreguei à luz, aos sonhos. Mas antes que eu pudesse me entregar à liberdade total, ao rio, pude sentir que fui abraçado por minha cintura e puxado de volta.


Este foi o primeiro capitulo do conto Perdido em mim, espero que tenham gostado e esperem os próximos capítulos que estão por vir.
Um grande abraço e obrigado por estarem comigo no mundo da leitura.
 Pallas

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