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terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Os Três Mohammeds


Conto retirado do livro "A maravilhosa Semente de Pêra e Outras fábulas populares do mundo"




Os Três Mohammeds

Nos velhos tempos havia um homem rico que tinha três filhos chamados Mohammed. Já de idade avançada, pressentiu o Anjo da Morte pairando ao seu lado. Então ele chamou seus filhos e lhes comunicou seu último desejo e testamento.
“Mohammed será meu herdeiro”, ele disse, ‘e Mohammed será meu herdeiro. Mas Mohammed não será meu herdeiro’. Então sua alma disse adeus e ele morreu antes que seus filhos lhe pudessem perguntar o que aquilo queria dizer.
Eles enterraram seu pai e choraram por ele durante sete dias. Nesse meio tempo, não disseram uma palavra sobre a herança. Mas chegou o oitavo dia e o irmão mais velho disse: “Quem pode g]herdar e quem não pode?”
Embora fossem muito espertos, eles não conseguiram descobrir a resposta para aquela questão. “Vamos até o juiz”, disse o mais jovem dos Mohammd. “Ele há de nos ajudar.”
Então eles foram até a casa do juiz. No caminho eles pararam num lugar coberto com um verde tapete de grama. “Um camelo esteve deitado aqui algumas horas atrás”, disse o irmão mais velho olhando para os seus pés. “Ele não tinha rabo.”
“O pobre animal é cego de um olho”, disse o segundo Mohammed. “Ele estava carregando num lado banha e melado no outro”, disse o mais jovem dos três.
Eles beberam um pouco de água e continuaram no seu caminho. De repente, avistaram um homem na estrada. Ele tinha um cajado de camelo e parecia muito triste.
“Você está procurando o seu camelo?’, perguntaram os irmãos.
‘Sim, estou. Ele fugiu uma hora atrás”, respondeu o homem.
“Ele não tinha cauda, não é verdade?” disse o primeiro irmão.
“É verdade! Um cavalo arrancou-o com os dentes.”, disse o homem.
“E ele só tem um olho, certo?”, disse o segundo.
“Sim, esse é o meu camelo!”
“Não é verdade que ele carregava uma carga de banha e uma carga de melado?”, perguntou o terceiro irmão.
“Exatamente! Fico contente que vocês o tenham encontrado. Que Alá os cubra com suas bênçãos. Onde ele está?”
“Não sabemos. Não o vimos.”
“Não o viram?’. O homem estava fora de si. “Como podem saber tantas coisas sobre meu camelo se não o viram?”
“É verdade’, disse o irmão mais jovem. “Que Alá lhe traga o seu camelo de volta. O fato é que não sabemos onde ele está.”
“Ladrões cínicos!”, gritou o homem. “Eu vou até o juiz acusá-los!”
“Iremos com você”, eles disseram calmamente.
Quando os quatro homens chegaram até o tribunal, que na verdade era a sala da frente da casa do juiz, o homem apontou para os três irmãos e disse: “Estes homens roubaram meu camelo, meritíssimo”.  E então ele contou ao juiz a história toda.
“Devolvam o camelo para o homem”, ordenou o juiz, quando o homem terminou de falar.
“O céu e a terra são nossas testemunhas, meritíssimo”, disse um dos Mohammeds. “Não somos ladrões e não estamos com o animal deste homem.”
“Então como vocês podem saber que o camelo dele não tem rabo, só tem um olho e está transportando banha e melado, se não puseram os olhos nele?”, perguntou o juiz.
“Quando estávamos para vê-lo, meritíssimo’, explicou o Mohammed mais velho, “paramos num lugar coberto de grama. Imediatamente notei que parte da grama estava amassada, e tinha o formato de um camelo.”
“Entendo’, disse o juiz.
‘E o senhor sabe, meritíssimo”, ele acrescentou, “um camelo balança o rabo de um lado para o outro sem parar.”
“É claro”, concordou o juiz.
“E quando ele faz isso, ele amassa a grama. Mas a grama estava alta onde tinha de estar baixa. Então concluí que o animal não tinha rabo.”
“Ah”, fez o juiz. “E quanto ao olho do camelo?”
“Bem”, explicou o segundo Mohammed, “não havia grama do lado direito da figura, mas, do outro lado, a grama não foi tocada. Então concluí que o pobre animal não podia ver com o olho esquerdo.”
“Muito bem”, disse o Luiz, “vocês agora podem explicar como descobriram o que o camelo estava carregando?”
“Isso não foi difícil, meritíssimo”, disse o irmão mais moço.”
“Não foi?”, indagou o juiz incredulamente.
“Do lado esquerdo havia muitas formigas. Elas gostam de coisas doces, o senhor sabe. Do lado direito, vi moscas. Centenas delas. Moscas gostam de comida gordurosa, todo mundo sabe disso.”
O juiz voltou-se para o dono do camelo e disse: “Estes homens não são ladrões. Eles conseguiram identificar coisas ainda que não as tenham visto. Vá procurar o seu camelo, e que Alá o guie.”
Depois, olhou para os três irmãos e disse: “Por favor, sejam meus convidados. Vamos fazer uma bela refeição agora. Amanhã conversaremos sobre o seu problema, seja ele qual for.”
Um criado então trouxe um cordeiro assado e os três Mohammeds se sentaram para comê-lo.
“Lamento que não possa fazer-lhes companhia. Tenho de sair agora, mas estarei de volta assim que puder. Por favor, sirvam-se”, o juiz disse isso e saiu da sala, mas não foi longe. Escondeu-se atrás de uma cortina. Ele queria escutar os homens.
O irmão mais velho empurrou a carne e disse: “Isso é carne de cachorro. Eu não vou comer isso.”
O segundo irmão acrescentou: ‘A mulher que cozinhou este cordeiro está menstruada”.
O terceiro irmão disse: “Eu não me surpreendo. Afinal de contas, o nosso anfitrião é um bastardo!”.
O juiz ouviu tudo aquilo sem dizer nada. Ele foi até a sua criada. ‘Você serviu carne de cachorro para meus convidados?”
“Por Alá, não!”, respondeu a criada. “Era um cordeiro de verdade, mas, quando ele nasceu, a sua mãe morreu, e então eu o coloquei com uma cadela para mamar o leite dela.”
O juiz esta surpreso. “Você está naqueles dias de mulher?’, ele perguntou.
Agora a criada que estava surpresa. “Como, senhor?”, ela disse.
O juiz repetiu a pergunta, usando palavras diferentes. “Você está no seu período de menstruação?”
“Sim, senhor, estou”, admitiu a criada. “Por quê?”
O juiz não respondeu. Correu até o quarto de sua velha mãe. “Diga-me, mãe”, ele disse segurando uma faca perto da garganta dela. “Quem foi meu pai?”
A pobre velha, temendo por sua vida, confessou. “Seu pai não era aquele que você sempre chamou de pai. Era um mercador que...”
“Cala-se!”, ordenou o juiz. ‘Eu não quero ouvir mais! Que Alá a castigue!”
Aquela foi uma longa noite para o juiz. Ele não conseguia dormir. Virando de um lado para o outro, não parava de pensar na sua mãe.
No dia seguinte, os três irmãos lhe disseram por que queriam consultá-lo. O juiz ouviu-os em silencio.  Então ele com tristeza olhou para o irmão mais novo e disse: ‘Você, Mohammed, não herdará nada.”
“Por quê?”, exclamou o rapaz, incrédulo.
“Eu ouvi o que vocês três disseram ontem à noite.”
Ele voltou-se para o irmão mais velho.
“Mohamed, você pensou que o cordeiro tinha gosto de carne de cachorro, por causa do leite de cadela que o cordeiro mamou. E você, Mohammed, pensou que a cozinheira estava menstruada porque não havia tempero no cordeiro, e todos sabem que uma mulher menstruada não consegue distinguir sal de açúcar. E quanto a você, jovem Mohammed, lamento dizer que você não é filho de seu pai. É sabido que somente um bastardo pode reconhecer um outro bastardo.”

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