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sábado, 3 de setembro de 2011

Píramo e Tisbe

Píramo e Tisbe
 
Há muitos e muitos anos, vivia na babilônia um rapaz chamado Píramo, o mais belo dos jovens de seu tempo. Bem ao lado da casa dele, separada apenas por muro, vivia Tisbe, a mais linda jovem do oriente. Sendo vizinhos, acabaram se encontrando e ficando amigos. Mais que isso, em pouco tempo aquela amizade virou amor e começaram a falar em casamento. Acontece, porém, que as famílias não queriam aquela união e proibiram o namoro. Os dois não podiam se falar. Como não tinham um aliado ou confidente que pudesse levar seus recados e ajudá-los, foram desenvolvendo uma linguagem de sinais e acenos. Quanto mais se ocultavam, mais o amor escondido ardia e abrasava.
No muro que separava os dois quintais havia uma rachadura, que tinha virado uma fresta. Tão apertada que passara despercebida de todos. Mas nada escapa aos olhos dos apaixonados! Píramo e Tisbe descobriram essa fresta e logo notaram que podia ser um canal para suas vozes. Píramo parava de um lado, Tisbe do outro, e começavam a ouvir a respiração do ser amado ali pertinho. Daí a pouco sussurrando:
-Muro, muro, deixe de ser ciumento... não fique no caminho dos que se ama! Por que não deixa que a gente se abrace?
-Por favor, muro, se abra mais, para podermos nos beijar...
Passavam o dia todo murmurando ao lado do paredão. De noite, se despediam e beijavam as pedras do muro.
Certa manhã, quando a aurora apagara o fogo das estrelas, e os raios do sol já tinham secado o orvalho da noite, os dois chegaram ao ponto de encontro e, como sempre, começaram a suspirar. Mas estavam muito tristes. Seus lamentos foram ficando cada vez mais sofridos. Não estavam agüentando mais. Por isso, acabaram resolvendo que naquela noite, cada um tentaria esgueirar-se, passar pelos guardas e escapulir da casa. Depois que fugissem, iriam encontrar-se fora da cidade. Para  não se perderem, marcaram um encontro junto a um túmulo que havia no campo, ao lado de uma imensa amoreira – porque a sombra da árvore podia ajudar a escondê-los, no caso de eventuais olhares indiscretos. E, como bem pertinho havia uma fonte de água fresca, seria um lugar perfeito para uma espera.
Quando a noite chegou, Tisbe conseguiu abrir a porta e sair com facilidade, sem que ninguém a visse. Envolta num véu, chegou ao local combinado e sentou-se debaixo da amoreira, cujos frutos nesse tempo eram branquinhos como a neve e brilhavam sob a lua. Mas daí a pouco, apareceu uma loa que acabava de caçar e, ainda com  boca gotejando sangue, vinha beber água na fonte. À luz do luar, Tisbe viu o animal se aproximando e correu para se abrigar numa caverna próxima. Na corrida, deixou cair o véu. A leoa encontrou o tecido e avançou sobre ele, rasgando o pano e deixando todo sujo de sangue. Depois, bebeu água e foi embora.

Píramo só conseguiu chegar um pouco mais tarde. Viu as pegadas e ficou pálido. Pior ainda, viu o véu de Tisbe estraçalhado e ensangüentado. Desesperou-se. Achou-se que Tisbe tinha sido devorada por um leão e a culpa era dele, que a convencera a ir sozinha de noite a um lugar perigoso e não conseguira chegar a tempopara estar lá a sua espera. Chorando, abraçado ao véu de Tisbe, sacou a espada e a enterrou no próprio peito. O sangue jorrou longe e abundante, e esguichou sobre a raiz da amoreira e sobre as amoras, que foram tingidas por aquela cor púrpura.
Ansiosa para não desapontar seu amado, Tisbe voltou, olhando em volta à procura dele, e louca para lhe contar sua aventura e o perigo de que tinha escapado. Quando viu príamo no chão coberto de sangue, no chão, morto, ficou fora de si. Batia no próprio peito, arrancava os cabelos, lavava o sangue dele com lágrimas, beijava o rosto frio. Ao distinguir que  as mãos do rapaz seguravam seu véu rasgado e a espada estava fora da bainha, percebeu o que ocorrera. Segurou então a espada com firmeza e se lançou sobre ela para morrer também, no aço ainda quente do corpo amado. Com tristeza, os deuses guardaram para sempre a lembrança dos dois nos frutos da amoreira – cor de sangue antes de amadurecer, e pretos de luto no apogeu da doçura, quando ficam no ponto para serem colhidos. E, ao amanhecer, as duas famílias, finalmente, constatando a que ponto sua intransigência tinha levado os dois namorados, conseguiram as cinzas na mesma urna.



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