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sábado, 12 de novembro de 2011

Eco e Narciso

Eco e Narciso

Eco era o nome de uma ninfa muito tagarela, que conversava muito e sem pensar. Não conseguia ouvir em silêncio quando alguém estava falando. Sempre se intrometia e interrompia, nem que fosse para concordar e repetir o que o outro dizia. Um dia, fez isso com a ciumenta deusa Juno, quando ela andava pelos bosques furiosa, procurando o marido Júpiter, que brincava com as ninfas. A tagarelice de Eco atrasou a poderosa Juno, que resolveu:
— De agora em diante, sua língua só vai servir para o mínimo possível.

E a partir desse dia, a coitada da Eco só podia mesmo repetir as últimas palavras do que alguém dissesse. Sua voz deixou de expressar suas próprias palavras.

Por isso, algum tempo depois, quando ela viu um rapaz belíssimo e se apaixonou por ele, tratou de ir atrás sem dizer nada, em silêncio. Esse rapaz se chamava Narciso e dizem que foi o homem mais bonito e deslumbrante que já existiu. Todo mundo se enamorava dele, que nem ligava.

Eco ficou louca por Narciso e o seguia por toda parte. Bem que tinha vontade de se aproximar e confessar seu amor, mas não tinha mais que a própria fala, não podia enunciar seus pensamentos e sentimentos... Só lhe restava ficar escondida, por perto, esperando que ele dissesse alguma coisa que ela pudesse repetir.

Um dia, o belo Narciso estava passeando no bosque com uns amigos, mas se perdeu do grupo e não conseguiu encontrá-los. Começo então a chamá-los:

—Tem alguém aí?

Era a chance da ninfa! E, ela logo respondeu, ainda escondida:

—Aqui! Aqui!

Espantado, Narciso olhou em volta e não viu ninguém. Chamou:

—Vem cá!

E ela repetiu:

—Vem cá! Vem cá!

Não vendo ninguém, ele perguntou:

—Por que me evita?

—Por que me evita? – foi a única resposta que ouviu.

O rapaz não desistiu:

—Vamos nos encontrar...

Toda feliz, Eco saiu do meio das árvores e correu para abraçá-lo, repetindo:

—Vamos nos encontrar...

Mas ele fugiu dela, gritando:

— Pare com isso! Prefiro a morte a deixar que você me toque!

A pobre Eco só podia repetir:

—Que você me toque... Que você me toque...

E saiu correndo, triste e envergonhada, para se esconder no fundo de uma caverna. Sofreu tanto com essa dor de amor, que foi emagrecendo, definhando, até perder o corpo, desaparecer por completo e ficar reduzida apenas a uma voz, repetindo as palavras dos outros – isso que nós chamamos de eco.

Narciso continuou sua vida, sempre da mesma maneira. Sem ligar para ninguém, nunca se importando com os outros, brincando com os sentimentos alheios. Até que alguém, que ele fez sofrer muito, rezou para Nêmesis, a Deusa do Destino, e pediu:

—Que ele possa amar alguém tanto quanto nós o amamos! E que também seja impossível que ele conquiste seu amor!

Nêmesis ouviu essa oração. Achou que era justa e resolveu atender ao pedido.

Havia no fundo do bosque um laguinho de águas cristalinas e tranqüilas, onde nunca vinha um animal beber água e não caíam folhas ou galhos secos - um verdadeiro espelho. Era cercado por uma grama verdinha e macia. Um lugar muito fresco e agradável. Um dia, no meio de uma caçada, Narciso passou por ali. Com sede, resolveu tomar um pouco de água. Deitado na margem. Com a cabeça inclinada sobre o lago, ficou encantado pela belíssima imagem que via. Nunca tinha se visto num espelho e não sabia que era sua própria imagem que via. Imediatamente se apaixonou, maravilhado por tanta beleza. Ficou ali parado, contemplando aquele rosto mais bonito do que o de qualquer estátua de mármore que jamais vira. Suspirava, extasiado diante daqueles olhos brilhantes como estrelas. Admirava o pescoço elegante, o rosto adorável, os cachos abundantes do cabelo, emoldurando um rosto de proporções perfeitas incomparáveis. Nem mesmo um deus poderia ser tão belo!
 
Os amigos apareceram para procurá-lo, mas ele não deu atenção. Chamaram-no para ir embora, mas ele ficou. Olhando o reflexo no lago.

Quando sorria, aquela criatura divina lhe sorria ao mesmo tempo. Quando aproximava os lábios da superfície, via que o outro rosto também chegava mais perto, preparando um beijo. Mas, as se tocarem, o outro rosto sumia e só ficava água. Mergulhou os braços na água, tentando puxar para si aquele pescoço, trazer aquele corpo para seu abraço. Mas tudo se devolvia.

Muito tempo Narciso ficou ali, sem comer nem dormir, admirando aquele ser por quem estava apaixonado. Chorou – e suas lágrimas caíram sobre a imagem, que chorava com ele, e ficou turva.

— Ai de mim! – gemia ele.

A única resposta que tinha era de Eco, sempre escondida:

—Ai de mim!

Consumindo-se de amor, sem conseguir sair dali, Narciso ficou desesperado, rasgou suas vestes, se arranhou todo, puxou os próprios cabelos. Na água, a imagem fazia o mesmo. Mas ele não podia agarrá-la. Nem tinha forças para prestar atenção em mais nada que não fosse aquele rosto refletido no lago.

Desinteressado de tudo, cada vez mais fascindo por si mesmo, foi definhando. Ao perceber que ia morrer, suspirou:

—Adeus! Adeus

Fechou os olhos, deixou cair a cabeça sobre a grama. Na água o rosto sumiu. Só Eco respondeu:

—ADEUS!

Mais tarde, os amigos voltaram. Mas já o encontraram morto. Prepararam tudo para o funeral, e, quando vieram buscar o corpo, ele não estava mais lá. Em seu lugar nascera uma flor branca perfumada e linda, com uma estrela de pétalas brancas em volta de um miolo amarelo. Para sempre chamada de Narciso.






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