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terça-feira, 27 de março de 2012

Perdido em mim, Capítulo IV

Este é o quarto capítulo do conto perdido em mim. Escrevê-lo tem sido realmente gratificante, relembrar minha aura de escritor. Aqui está o link para a primeira parte, onde vocês encontrarão todos os capítulos já publicados:
A Melodia
Agora finalmente consigo me lembrar, da neve em meu corpo, aquela sensação estranha de perder e também ganhar.
Contudo aos meus ouvidos o único som que chega é a melodia do piano, não mais o som da correnteza.
Ela me é familiar, ela é a música do meu sonho, minha música, porém há algo diferente. Esta é mais calma, ao invés de apenas dor e desespero ela canta ao amor, assim como a dor. É como ouvir o som, a música de um coração.
Eu preciso saber quem a está tocando. Estou vestido. Estas devem ser as roupas de meu salvador, pois quando ele me trouxe minhas roupas já navegavam pelo rio, como caravelas sem destino.
É estranho estar neste quarto, não sei onde estou, com quem estou, mas sinto que essa é minha casa, a casa que nunca tive. Sinto o lençol sobre mim, o travesseiro macio, tudo é estranhamente familiar.
O mais impressionante é o perfume que vem das minhas roupas, do lençol. Não sei como descrevê-lo, é como se fizesse parte de mim. É como poder sentir o melhor perfume e mesmo assim ainda ser pouco para descrever.
Levantei-me da cama, com alguma dificuldade, meu corpo se recusa a deixar um leito tão especial. Tenho que usar minhas forças para descobrir quem está tocando essa música.
Caminho descalço, seguindo meus ouvidos, seguindo os acordes, tentando encontrar a origem.
O sol se põe. Eu posso ver sua luz alaranjada entrando na casa. Criando jogos de luzes e sombras. No final do corredor avistei um grande aposento, com janelas altas, do chão ao teto, janelas de um vidro muito transparente.
Por elas pude ver o mar, cheio de diamantes criados pela luz do sol. Dentro do cômodo o sol também fazia sua mágica. Pequenas partículas de pó pairavam no ar, a luz do sol como um ourives, um artista, as decompunham, cria um mundo dourado, como um manto de ouro para a tela principal. Meu anjo.
Ele tocava recortado contra o mar, sendo que eu podia ver apenas seu contorno, ou alguns pontos onde pequenos fechos de luz incidiam diretamente nele. Era como uma tela de um grande pintor com uma moldura sem igual.
Ele tocava de olhos fechados, sentindo a música, o fluir da melodia, dos sons, de seu coração. Não havia como não se encantar com aquela visão, com aqueles sons...
Também fechei os olhos, deixei que minha mente, meu coração seguissem com ele. Fiquei ali parado, de olhos fechados por muito tempo. Até a música parar de tocar.
Abri os olhos e vi que ele olhava par o mar, para o pôr-do-sol. Não quis interromper seu momento e comecei a dar um passo para trás quando ele se virou e ficou me observando com um olhar perdido, apaixonado, como se realmente não me visse.
Assim, eu parado, encostado no portal, vestindo sua camisa, iluminado pela luz do pôr-do-sol. Para ele, eu também deveria parecer uma tela, emoldurada pelo dourado. Depois ele piscou, saiu de seu transe particular. Abriu a porta que dava para uma sacada, parou na porta e me convidou a segui-lo
Nos sentamos em um banco, ficamos observando p efeito da luz sobre as ondas do oceano. As ondas se quebrando na praia. Foi quando ele disse:
––Eu sempre venho aqui, observar. Observar como as ondas são belas, únicas, mas também terríveis, elas podem destruír qualquer coisa em seu caminho, inclusive grandes rochas, penedos, encostas, tudo com o tempo e persistência, elas são capazes de mudar o mundo.
––Sim – eu disse, também observando o vai e vem das ondas - nunca saberemos os mistérios do mar, nem mesmo nossos próprios mistérios.
––Você tem toda razão, meu amigo, se é que posso chamá-lo assim, mas é que você está há um tempo aqui, que já o considero como um.
–– Claro que sim, afinal foi você quem me salvou. Lembra-se do rio...
––Não meu amigo. Aquele dia não fui eu quem salvou você. Mas sim o contrário.
––Como...
––Há algum tempo me sento entre as árvores, durante a noite, tentando esquecer, esquecer a mim mesmo. Sempre observo as pessoas que caminham na ponte. Elas sempre vão e vem, assim como as ondas desse mar, e nem ao menos se dão conta disso. Não param para verem onde estão, apenas seguem a correnteza, os outros. Você é diferente. Eu sempre o vejo sozinho, diferente do resto você sempre para e observa os que estão ao seu redor. Observa a correnteza, mas não faz parte dela, na verdade nada contra ela. E no dia em que você estava sozinho na ponte, eu fui para lá com a intenção de me juntar a ela, a correnteza do rio. Contudo você chegou antes de mim e decidi esperar e ver o que você faria. Foi quando nitidamente vi em você, no que você ia fazer, eu mesmo. E vi que precisava salvá-lo, pois salvando você, estaria salvando a mim mesmo.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Perdido em mim, Capítulo III


Este é o terceiro capítulo do conto Perdido em Mim, o primeiro capítulo se encontra aqui, através dele você pode ver todos os capítulos já publicados desse conto. Espero que gostem, este conto é especialmente importante para mim, então vamos a história:

 
Liberdade do Eu
Posso ver ao longe alguém caminhando, sozinho em uma longa estrada que serpenteia por uma densa floresta. Corro atrás dessa figura, ela me é familiar, a distância é o maior empecilho, talvez se eu conseguisse me aproximar mais, eu possa saber quem é a figura.
Uma chuva fina começa a descer dos céus, através de cada uma dessas gotas posso ver antigos rostos, antigas memórias, lembranças de outros tempos. O toque das gotas na estrada produz uma melodia delicada, melodia que também já ouvi. Em um dia cinza, sentado em frente ao piano, olhando pela janela, vendo a água escorrendo pela janela.
Acompanhando o ritmo deixei que minhas mãos traduzissem em sons meus sentimentos. Agora estou ouvindo a mesma música, vinda não de minhas mãos, mas sim das próprias gotas.
Continuei correndo para tentar ao menos ver quem é aquela pessoa. Ao longe posso ver que ela parou de caminhar, lentamente está se virando para mim. Não sei ao certo de onde o medo surgiu ou mesma a dor, apenas sei que não suportei olhar naqueles olhos.
Antes que eu pudesse ver seu rosto desviei o olhar. Passei a ver apenas o escuro da floresta, algo como uma garganta que a tudo devora.  Sem realmente ver coisa alguma, fugindo do que eu encontraria caso olhasse novamente para a figura.
Daquelas sombras sem nome algo surgia. Com muita calma as sombras tremeluziam, como se no meio delas houvesse uma chama invisível, elas dançavam nas chamas inexistentes. Conforme dançavam, o contorno de uma pessoa surgia.
Essa forma caminhou para mim. Parou a poucos passos. Ainda não sabia quem era, e seu toque lembra o meu próprio toque, com o acréscimo de uma dor sem limites, uma dor que se alimenta dessa pessoa, a consome por dentro, sem que ela nada possa fazer.
Tocou sua testa em mim, com seus olhos fechados, sem que eu a pudesse reconhecer, mesmo estando a centímetros de mim. Pousou seus lábios nos meus, como se emitisse seu último sopro de vida, para que eu vivesse por ela, antes que aquela dor a matasse.
Antes dela ir-se totalmente, como eu sentia que iria, ela abriu os olhos, finalmente pude saber quem era essa pessoa. Eram meus olhos.
Meus olhos, escuros como a noite, tendo como soberana apenas a escuridão. Foi então que acordei. Tudo não passou de um sonho. Não sei ao certo onde estou ou o porquê estou aqui. Essa casa eu não conheço... A única coisa que me é familiar é a música que ecoa pela casa, a música do meu sonho.
Será que ainda estou sonhando? Me belisco e sinto a dor, e como dizem, nos sonhos não sentimos a dor, embora eu duvide dessa afirmação após meu último sonho, como era possível que aquela pessoa não estivesse sofrendo? Que eu não estivesse sofrendo?
De qualquer forma agora parece mesmo que estou acordado. A melodia é mais real, não é apenas um eco ou uma lembrança.
Agora consigo me lembrar, do rio, da sensação de liberdade, dos sonhos perdidos. Agora sei quem era aquela pessoa do sonho, era eu. O Eu que sentia tanta dor a ponto de não mais suportar e querer se libertar dela.
Naquela noite, aquele eu se perdeu no rio, aquele eu realmente ganhou a liberdade e agora faz parte da correnteza. Mas deixou comigo seu último sopro de vida. Deixou sua vida nas asas de meu anjo.

 

sexta-feira, 2 de março de 2012

Perdido em mim, Capítulo II


Este é o segundo capítulo do conto Perdido em Mim, espero que gostem, logo escreverei o terceiro capítulo, espero que gostem:
Anjo
A dor de um ferimento não chega ao receber o golpe, apenas quando vemos nossa carne nos damos conta do estrago e a dor se espalha de tal forma que não há como viver, ela continua a tomar proporções cada vez maiores. Assim também foi com meu ferimento, não havia percebido o quão profundamente a solidão massacrara meu ser, quando percebi um anjo me salvou.
O mais estranho é que eu nem mesmo acredito em anjos e um me salvou. Talvez mesmo que não acreditemos em algo, ainda sim ele exista. Eu não acredito na felicidade, na salvação, e elas existem?
Quando meu corpo, meu espírito se preparavam para entregarem-se a correnteza do rio, a velejar para o grande oceano, para o infinito, minha viajem foi interrompida antes mesmo de começar. Eu não estava sozinho, não era o único a sentir os flocos de neve pairando no ar, a sentir as lágrimas do céu. Quem era ele? Por que impedia minha viajem?
O tempo parou, um espaço na realidade, aqueles braços traziam de volta não só meu corpo, como também minha alma, perdida nas trevas de mim mesmo. Foi tão grande o choque que minha consciência me abandonou aos poucos.
Antes, porém, ela me permitiu um breve vislumbre. Em movimentos serenos, ao menos eu via tudo com extrema lentidão devido à fraqueza de minha consciência, ele abraçou-me com força, puxando-me de volta. Meu corpo gritava em protesto, contudo minha alma esperava. Segurou-me em seus braços, como uma criança que apenas descansava.
Meu corpo tiritava de frio, vendo meu tremores, estando eu nu, ele retirou seu casaco, foi nesse instante que pude abrir os olhos, havia uma aura luminosa em torno dele, um brilho azulado, cristalino, seus cabelos esvoaçavam com o sopro da neve, uma visão que nunca esquecerei, colocou seu casaco sobre mim, ao sentir o toque quente da lã deixei de ver qualquer coisa, desmaiei no colo de meu anjo.
É tão estranho não saber ao certo onde se está, se é noite ou dia, frio ou quente, luz ou trevas, era neste reino insólito me encontrava. Pensava se realmente esse é o outro lado, o além da vida, o nascer da morte, foi então que me lembrei que este ainda não era o reino dos mortos, que eu ainda não fazia parte dele.  Meus olhos se abriram, despertei novamente para o mundo.
Tentei me localizar, porém minha cabeça doía tanto que desisti, então dediquei-me a tarefa de levantar-me, contudo uma voz grave, mas também delicada e gentil veio das sombras.
––Não se mecha. Por favor. Você ainda está fraco e precisa descansar.
––Quem...
––Não diga nada. Não está na hora de respostas. Está na hora de dormir. Feche os olhos...
Ao terminar de falar ele se aproximou, novamente pouco vi de meu anjo, apenas o dourado cascateante de seus cabelos pousado sobre meu rosto e seus olhos de safira lapidada, brilhantes como à gema a luz das estrelas.
Olhou-me com ternura e cuidado, colocou sua mão sobre meus olhos, fechando-os, um toque tão macio, beijou-me a testa, como se ele fosse meu guardião, novamente adormeci, com a certeza de que meu anjo me guiaria, que o céu existe.
Até a próxima
Pallas

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Perdido em mim, Capítulo I

Este é o primeiro capítulo do conto Perdido em Mim, conforme os outros capítulos forem sendo escritos serem postados aqui os links para eles: Capítulo II, Capítulo III, Capítulo IV

A Ponte
 
Hoje está uma noite fria, início do inverno, ainda posso ver as últimas folhas do outono caírem, dançam em uma brisa gelada. Brisa que traz a neve. E não estou enganado. Logo os flocos começam a cair.
Uma noite tão estranha, não sei ao certo para onde vou. Já faz um tempo que estou perambulando por avenidas vazias, escuras, às vezes vejo um casal ou, espaçadamente, alguém voltando para casa. Ao contrário de mim todos parecem ter um destino, voltam para casa, para sua família, seu lar. Alguns marcam encontros, outros simplesmente encontram.
Aí me pergunto, e eu? Caminho sozinho, pensado em todas as noites, momentos, em que me via no escuro, mesmo com todas as luzes acessas, e não sabia de onde a escuridão surgia. Às vezes era como se sombras me perseguissem e por mais que tentasse me livrar delas, mais elas se aproximavam, uma espécie de perseguição sem fim.
Freqüentei muitos ambientes todos tidos como sagrados, onde eu via a fé nos olhos daquelas pessoas, mas a sua fé, não era a minha fé. O que lhes curava, para mim apenas causava mais dor. Então sempre pensava, o que há de errado? Por que sou assim? E nunca encontrei uma resposta.
Quantos rostos eu já vi, quantas palavras já ouvi e nada pode tocar meu coração. Ver a felicidade, sorrisos, pelo mais insignificante dos atos, apenas sorrir. Cada instante era uma eternidade e o que encontrava no eterno? Sombras, incertezas, dor.
Por isso, hoje, ao invés de me deitar em minha cama, olhar para o teto, tentar inutilmente dormir, me levantei e deixei meu corpo me guiar, guiar-me para além de meu reino, para o desconhecido.
Há um rio que corta a cidade, profundo, caudaloso, de correnteza alta. Ele cruza o centro do parque em que estou. Um espetáculo de rara beleza. Há noite luzes azuis iluminam o rio, fazem dele um ser sobrenatural, sedutor.
Para apreciar este espetáculo único, uma ponte de vidro foi construída. É como se andássemos sobre o próprio rio, liberdade, liberdade da própria terra, da humanidade.
Essa ponte se tornou minha amiga, companheira, aonde eu vinha para refletir, chorar. E agora meu corpo me trouxe para ela. Parei no meio dela, me sentei, observei o parque, eu era a única pessoa nele, depois fixei meu olhar no rio abaixo.
Como eu gostaria de ser como ele. Nascer tão pequeno, em lugares desconhecidos, e aos poucos crescer, correr pelo mundo, sendo apenas eu mesmo, seguindo apenas meu curso, me dirigindo para a imensidão, para o oceano. No caminho encontraria lindas paisagens, porém iria saber que nada é eterno, que aqueles poucos momentos em que eu ficaria com elas seria para mim mais que a própria imortalidade.
Infelizmente, não sou esse rio, não tenho sua liberdade, sua direção. Talvez eu não seja o rio, mas posso fazer parte dele.
Me levantei, tirei minha roupa lentamente, podia  sentir os flocos de neve acariciando minha pele, me trazendo lembranças de todos os momentos em que tudo o que senti foi a solidão, o frio. Não pude deixar de chorar. Chorar por tudo aquilo que ficava para trás. Mas eu finalmente pude entender o porquê de meu corpo me trazer até aqui.
Peguei as roupas, uma a uma joguei-as no rio. Quando meus olhos pararam de verter a dor da alma, subi no parapeito da ponte, senti o vento em meu corpo, que já não mais tremia pelo frio, mas sim pela expectativa da liberdade, da luz.
Fiquei parado do outro lado da ponte, encostado no parapeito, sentindo que finalmente as sombras deixariam de existir. Sob meus pés apenas o rio, a liberdade.
Fechei meus olhos e me entreguei à luz, aos sonhos. Mas antes que eu pudesse me entregar à liberdade total, ao rio, pude sentir que fui abraçado por minha cintura e puxado de volta.


Este foi o primeiro capitulo do conto Perdido em mim, espero que tenham gostado e esperem os próximos capítulos que estão por vir.
Um grande abraço e obrigado por estarem comigo no mundo da leitura.
 Pallas

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Conto, Despedidas



Despedidas
A noite está tão bela, calma, suave, acariciando o mundo com o veludo da escuridão. A neve espalha-se pelo terreno, um manto que aparenta ter a delicadeza da seda, contudo esconde o gélido e suave toque da inanição.
As árvores estão tão diferentes, não há mais flores, relva, o perfume da primavera, nem o abraço reconfortante do verão, apenas o escárnio do inverno, sorrindo perante os seres congelados, os corações despedaçados.
Mesmo assim continuo perambulando, relembrando cada instante daquele tempo que nunca mais voltará. Em cada centímetro memórias são despertadas e o açoite do frio me faz sentir uma sensação de vazio, é como uma ampulheta quebrada, onde toda sua areia, seu tempo escoa para fora, desfazendo seu propósito.
O caminho para chegar a casa encontra-se bloqueado por montanhas de neve. Da casa uma pequena fumaça sobe aos céus, como um pedido aos Deuses pela dor que paira em todos os lugares. A neve não é empecilho, não em meu estado atual. Com tranqüilidade, com uma dor sem igual, continuei.
Parei em frente à porta, observando as aldravas, os dragões que escolhemos para guardar e avisar da vinda de estranhos, destinados a também guardar nosso maior tesouro, nosso lar.

A porta estava fechada, contudo novamente atravessei-a. Era tão grande a vontade de poder rever ao menos uma vez tudo o que amo, que a porta se abriu e a neve, o vento, varreram o calor para o interior da casa, incessantemente.
Fechei meus olhos, senti o lugar em que estava, meu lar. Abri os olhos e a primeira memória foi à primeira fez em que entramos por essa porta. O outono estava no auge, tudo estava tão belo.  Você me carregou no colo, abriu a porta e o vento encheu o corredor de folhas douradas, um tapete de recepção nos guiando para nossa casa, nossa vida. Você me carregava pelo corredor, acabou escorregando nas folhas, me derrubou próximo a escada, caindo em cima de mim. Rimos muito, nos beijamos, nosso primeiro beijo em nossa casa. Apoiamos nossas cabeças no primeiro degrau da escada, juntos observamos o pôr-do-sol pela janela. As folhas continuavam a cair, trazidas pela brisa, emolduradas pelos últimos raios dourados de sol. Era como se penetrássemos no mundo das fadas, onde os instantes são eternos.
Essa lembrança foi-se com as rajadas que adentravam pela porta, agora o sol se punha envolto em sombras e escuridão.

Continuo caminhando pela casa, procurando por você. Dirijo-me para o único cômodo ainda quente da casa. Lá está você sentado em nossa cadeia, de frente para a lareira, dormindo segurando o livro que até poucos instantes você lia, o nosso livro.
Ao me aproximar de você logo a cena muda. Lembro-me de outro inverno em que estávamos juntos. Eu estava sentado aos seus pés, nevava lá fora, nos aconchegávamos em uma única coberta, sobre suas pernas e meu corpo. Eu abraçava suas pernas como uma criança que pede abrigo e você calmante me beijou. Serviu chocolate quente, começou a ler para nós Contos eternos, nossos contos. Ouvíamos a lareira crepitar, esquentar nossos corpos, enquanto juntos aquecíamos nossos corações.
Esta cena também se desfez. Você permanecia dormindo, eu estava em sua frente, sem nada para poder fazer para dizer o quanto eu te amo, o quanto sofro por você. As janelas se abrem com o sopro forte do vento, a neve, ambos tomam conta de teu leito, meu amor. Não posso permitir que parta também.
Novamente outra cena se forma em minha mente. Era uma linda tarde de primavera, os pássaros cantavam, as flores se abriam. Fazíamos um pequeno piquenique em nossa casa, nesta sala. Estava um pouco frio, acendemos a lareira, espalhamos velas pela casa, mesmo estando de dia.
Nos sentamos nesta sala, colocamos uma linda toalha branca, para não manchar o tapete. Distribuímos nossas taças, uvas, morangos, tortas. Apenas sorríamos. Então fizemos um brinde a nós. Antes de levar a taça aos meus lábios ela caiu, lentamente, espalhando vinho por toda toalha. Junto com a taça eu também caí, e antes de fechar os meus olhos eu vi os seus. Antes tão felizes, sorridentes, parou a taça a poucos centímetros dos lábios e a dor os preencheu. Foi à última visão que tive. Meu amor, nunca quis te causar dor, me desculpe.
Meu corpo caiu, um filete de sangue escorreu de minha boca, espalhou-se pelo branco. Pude sentir seu gosto antes de meu coração parar de bater.
Você foi até mim, me pegou em teu colo e tentou escutar meu coração, porém já não podia mais ser ouvido. Você gritou, abraçou meu corpo desesperadamente como se pudesse me manter vivo com o pulsar de seu coração. Encheu-me de beijos, cada vez mais desesperado e a única coisa que encontraste foi um filete de sangue e meu olhar vazio.
De algum lugar você encontrou forças, me pôs em seus braços e carregou meu corpo para fora de nossa casa, assim como o trouxeste. Enquanto corria comigo, me levava, tentava me salvar, mesmo sabendo que já era tarde, o vento novamente soprou trazendo milhares de pétalas de flores sepultavam meu corpo.
A lembrança foi-se. Foi-se com tanta dor que causou. Mas assim como tu, Meu amor, tentaste me salvar, eu salvarei a ti.
Como não consigo fechar as janelas, trarei você do mundo dos sonhos. Reuni todas as minhas energias e as enviei ao meu amor. Que no mesmo instante despertou, não com a dor que sentira na última vez em que o vi, mas sim feliz, pois você sabia que eu estava contigo. Por um breve instante você pode me ver como as pétalas de nosso adeus. E também pude sorrir pata ti antes de partir novamente.


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O pôr do sol


O pôr do sol
O brilho do sol ilumina a praia, o mar, o céu, com seu calor, sua vida. Caminho por esta praia, descalço, sentindo a areia, a umidade, sentindo o cheiro salino do mar.
Hoje, como todos os dias, esta praia está vazia, ela é como um paraíso, perdido, uma ilha neste mundo real. Uma ilha onde meus sonhos se tornaram realidade e também onde todos eles ruíram.
Está um dia tão lindo, onde os sonhos recém formados adquirem força para nadar contra a correnteza, e os antigos espalham suas raízes, crescendo, multiplicando-se.
Posso me lembrar. Foi há tanto tempo. Porém é como se fosse a um minuto atrás. Nesta mesma praia, em um dia como este.
Eu via você, sua felicidade. Corríamos como crianças, corríamos para um lugar ao qual fôssemos os únicos, os únicos viventes, testemunhas do maior dom humano.
Todos os dias sentávamos aqui, víamos o sol nascer e o pôr do sol, as estrelas eram nossas confidentes. Olhávamos os barcos em suas viagens pelo mar, pequenos pontinhos no horizonte e seus olhos brilhavam com a expectativa de um dia ser apenas eu e você viajando pelo mar, com a brisa em nossos rostos, os golfinhos nos acompanhando, as gaivotas nossas únicas visitas.
Naquele dia, tão especial, vendei seus olhos, suas perguntas freguentes querendo saber o porque disso, mas rindo com a expectativa. Levei você pelo cais, de propósito atraquei o barco o mais longe possível, apenas para poder ver a ansiedade estampada em seu corpo e ti abraçar pelo caminho, rindo com você.
Quando chegamos ao barco te abracei por trás sussurrando:
— Agora pode ver!
A felicidade, seus beijos, abraço, foram meus maiores presentes. Levei o barco para alto-mar. Sob o embalar das ondas, à luz avermelhada do pôr-do-sol nos deitamos, apenas observando um ao outro, na esperança de este dia nunca acabar.
Mas o tempo nunca pára, os caminhos  que a vida nos fornece acabam em becos, em armadilhas, precipícios. Olindo pôr do sol transformava-se, o rubro-alaranjado foi substituído por negras nuvens, ameaçadoras, carregando destruição e ódio em suas entranhas. O mar agitou-se. Durante nosso momento eterno a embarcação foi arrastada pelos ventos, nos encurtávamos muito longe da costa, cercados apenas pelo oceano e nada mais.
Meu desespero alcançou tais extremos que eu não sabia o que fazer. Aquela tempestade não era normal, e eu havia procurado saber se uma tempestade se aproximava, e não havia registro. Não havia combustível suficiente para voltarmos estando tão longe da costa.

E a tempestade começou. Não podíamos fazer nada. Eu queria um dia só nosso...
Você estava com tanto medo, seu coração acelerado, seus cabelos molhados, não só da chuva forte, mas também de lágrimas.
Abracei voe, porque não havia mais nada a fazer. Uma onda gigantesca se formou, a foice do ceifeiro, destinada a varrer de suas águas tudo que se interpunha em seu caminho de soberana. Deitou-se sobre nós, enlaçados em um beijo, na esperança de absorver a essência um do outro, em um abraço desesperado, em nosso último palpitar, com nossos corações juntos, no mesmo ritmo, sem palavras, unidos pelo corpo e alma.
Ao tragar-nos, elas despedaçaram o barco, despedaçou nosso abraço, levou você com ela, te levou de meus braços para suas entranhas. E levou minha consciência consigo.
Acordei em um hospital, procurando você, esperando te ter ao meu lado. Os médicos vieram até mim, perguntei-lhes onde te colocaram, minha vida, meu amor, onde você estava.
Me disseram que fazia um mês que eu estava em coma, fui encontrado por pescadores em uma praia distante, após o furacão. E não havia sido encontrado outro comigo, nem vivo, nem morto. Que houve uma busca por ele, mas nada fora encontrado, nenhum vestígio do barco, nem de meu amor.
A notícia fez meu mundo desmoronar. Como pode? Por quê? Foi o dia mais feliz da minha vida. Todos os meus sonhos se realizavam, ele é tudo para mim. E agora não existe mais! Não acredito nisso. Logo ele vai entrar por essa porta, me dizer que não foi nada, que estamos prontos para outra, me fazer levantar, irmos ver as estrelas. Ele é a minha realidade. Como ela pode deixar de existir? Nem mesmo existe um corpo para provar o que dizem.
O tempo passou e ele não mais veio. Não veio para casa, para nossa cama, para a praia, os campos, não recebeu minhas flores, meus beijos, não ouviu os acordes que criei para ele, não sentiu o cheiro dos lírios...
Todos os dias, na mesma hora eu me dirijo para este mesmo local, onde nos conhecemos.
Eu estava aqui, olhando para o mar. Pedindo a ele que me permitisse amar, que me permitisse derrubar as muralhas que me cercam, abrir meu coração a passagem de um amor. E atendeste o meu chamado. Me trouxeste ele. Sentou-se ao meu lado, foi como ver os céus se abrirem e deles surgir um anjo para me proteger.

E estávamos sós, ele virou seu rosto para mim e sorriu, no mesmo instante senti as muralhas ruírem. A partir daí todos os dias nos sentávamos no mesmo lugar, vendo o pôr e o nascer do sol e das estrelas. Num desses dias, decidimos mergulhar. E sob o último raio de sol, ao toque do mar, sob o canto dos pássaros, você me abraçou, me disse que me amava, que não conseguia ficar longe de meu toque, esquecer o cheiro de minha pele e ansiava por provar o sabor de meus lábios. E nosso primeiro beijo, nunca vou esquecer seu doce hálito, seu toque, seu beijo.
E depois desses setes anos ainda não esqueci. Por isso todos os dias, tenho a esperança de te ver, tocar, sentir. Nunca pude tocar o mar, agora ele é seu leito e não tenho o direito de tocá-lo, agora que está além de meus braços.
Ao longe posso ver um lírio, próximo ao cais. Me aproximo e vejo que é o mesmo lírio que vimos em um campo silvestre. Porém este é uma espécie única, que criei para você. E eles morreram. Então como pode estar aqui?
Caminhando até ele, pego-o e sinto seu cheiro, é o mesmo que o seu meu amor. Não posso conter as lágrimas que sempre caem quando o sol deixa esta praia. Junto ao lírio vejo também uma caixinha. E a reconheço. Mas ela estava perdida, por todos esses anos, ela foi-se com você. Esta caixinha contém as nossas alianças, naquele dia iria te pedir em casamento, no mar, onde tanto sonhávamos viver. Mas não tive tempo. A tempestade te levou e levou consigo as alianças, nunca mais as vi, e agora elas estão aqui, aos meus pés.
Quando olho para o cais, no mesmo lugar em que te levei para atracarmos estava alguém. Fiquei tão atordoado que cai de joelhos e comecei a chorar descontroladamente. Será mesmo que o que eu via era real? Depois de todos esses anos?
A figura não se mexia , olhava para o oceano. Perdida em seus pensamentos. Fui até ela. Parei a poucos metros e chamei.
––Daniel? É você?
––Sim. Sou eu Henri.
Corri até ele, o abracei, o beijei tentando absorver cada parte. Não podia ser real. Como?
––É real Henri. Você não me senti?
Entre lágrimas e beijos eu disse.
––Sim! E é por isso! Como pode?! Faz sete anos Henri...
––E eu nunca saí de perto de você. Nunca permiti que te machucassem. Te deitava sobre meu colo para te fazer dormir, mas você não sabia. Nunca te abandonei. Como poderia fazer isso?
––Ah Daniel... Sinto tanto a sua falta. Durante esses anos ver o sol me doía tanto, porque sabia que na poderia te ter ao meu lado. Mas nunca perdi as esperanças de te ver de novo, porque te sentia nestas praias.
––Nunca vou te abandonar. Hoje é o dia de nos reencontrarmos. Agora pela eternidade. Venha Henri, hoje sou eu que guio o barco.
Entramos naquele barco e fizemos o mesmo percurso, rindo, chorando. E eu não o largava, de medo que ele partisse de novo. E então paramos, no mesmo local de antes.
––Daniel, me perdoe. Foi minha culpa você ter morrido. Se eu não saísse naquele barco, se eu não quisesse realizar um sonho nosso, você não teria ido... você poderia...
––Henri. Não foi culpa sua. Está além de você. E aquele foi o dia mais feliz da minha vida, foi como se o tempo não existisse. E estava ao seu lado. Pude zelar para que despertasse no hospital.
––Naquele dia, eu tinha um pedido a te fazer. E eu quero fazer agora, que tenho a segunda chance. Daniel, você quer se casar comigo? Estarmos juntos pela eternidade. Sermos um só. Sei que são só símbolos materiais, que não são nada diante do amor que sentimos, mas...
––Sim! Eu aceito, Henri! Eu aceito!
Novamente vi aquele sorriso. O mesmo da primeira vez que o vi. Coloquei a aliança em seu dedo e selei nossa união com um beijo. Ao mesmo tempo um brilho intenso cobriu o oceano liberando fumaça e fogo, pude sentir que também me libertava do mundo físico. E eu e o Daniel continuamos sobre as ondas, vendo o último aio de sol no horizonte.


  

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Amor e morte

Eu peço a quem for ler esta história que primeiro carregue estes vídeos iniciais, a música faz parte da história, deixe-a tocar ao fundo enquanto lê, é um pedido meu, porque ela é uma história que mecheu comigo e gostaria de poder passar isso também a quem for ler.
Amor e Morte
Numa vala, perdidos em um mundo de morte e podridão, cercados pelos horrores da guerra, vendo seus amigos morrerem diante de si, encontravam-se dois amigos.
Amigos há tanto tempo quanto suas memórias são capazes de se lembrar. Neste dia como todos os outros havia apenas a desolação diante de seus olhos. E uma chuva delicada e cinzenta, vestígios da fumaça das bombas e dos corpos queimados, caía dos céus chorosos. O solo havia a muito perdido suas cores, restava apenas o prateado e o negro das cinzas. Já não se distinguia ao longe inimigos de aliados, havendo grandes riscos de atingir um companheiro.
Os dois estavam sentados sob um toldo isolados dos outros soldados, lembrando das cores de sua terra natal, agora tão sonhada.
Mas o sino do combate não cessava. Puderam ouvir do lado norte do acampamento o retumbar das granadas e seu brilho macabro. Logo após ouviu-se os estampidos dos tiros clamando a presença dos dois.
Movidos por seus corpos, não por suas mentes, os amigos se dirigiram ao local. A cada passo o mundo dos dois desmoronava aos poucos. Thomas, um jovem de olhos e cabelos intensamente negros, uma face de alegria e felicidade corrompidas pela guerra. Ao seu lado, Alexander, cabelos loiros, olhos de um azul intenso, seu rosto fincado por antigas cicatrizes emocionais, mais profundas que as físicas.
Alexander virou o rosto, sujo de sangue e molhado, para Thomas e sorriu. Thomas preencheu-se de um sentimento de perda, como se este fosse um adeus, o último sorriso de seu amigo.
Chegaram ao local do bombardeiro, contudo já não havia combatentes. As bombas estraçalharam os mais próximos, deixando espalhados seus corpos, tingindo de vermelho o cinza reinante. E os que sobreviveram, mataram-se mutuamente com suas metralhadoras. Caminharam pelas sombras, evitando serem localizados por possíveis sobreviventes.
Thomas não encontrando ninguém vivo, levanta-se para aumentar seu campo de visão. Ao erguer-se não percebeu que ao longe, em sua direção havia um homem escondido que apontava em sua direção e disparou.
No momento em que percebeu o que iria acontecer, Alexander atirou-se na frente de Thomas agindo como seu escudo. O tiro acertou-lhe o estômago e o pulmão.
Thomas virou-se, pode apenas perceber que seu amigo caía e sangrava. Colocou sobre si o corpo de Alexander e gritou, um grito que ecoava do mais profundo de seu ser. As lágrimas começaram a rolar. O sangue escorria dos ferimentos e ao tentar falar o sangue também começou a sair por sua boca.
— Não, Alexander, não! Não fale. Não se mexa. Eu vou te levar daqui. Eu vou te salvar. POR FAVOR, NÃO MORRA!
As palavras jorravam junto com as lágrimas de Thomas. Que maculava o cinza de sua roupa com o sangue de seu amigo.
—Thomas... sei que... não tenho muito tempo...
— Não! Não diga isso! Sempre estivemos juntos! Sempre fomos mais que irmãos! Fomos...
—É isso! Thomas... por favor, me escute. Por tanto tempo amei calado, por tanto tempo escondi o amor que habita em mim. E... não quero morrer sem que você saiba.
— O que Alexander?
—EU TE AMO! Por todos esses anos. Cresci com você. Fui seu ombro em todas as vezes que precisou chorar. E quando chorava com você era porque me doía tanto te ver sofrer sem poder fazer muita coisa por você. Quando estava em meu colo, chorando, porque seu coração havia sido partido, o meu esfarelava-se. E, todas as vezes que rimos juntos era como se tudo perdesse o sentido e houvesse apenas você. Quando saíamos para as festas e você sempre me via sozinho, era porque eu zelava por você. E porque a pessoa mais importante para mim estava ao meu lado. E quando decidiu que iria se alistar, não faz idéia do medo que passei em te perder. As lágrimas derramadas. E foi por isso que também me alistei. Não porque era meu sonho. Mas porque você é meu sonho, meu mundo. Os horrores que passamos nessa guerra, apenas me mostraram o quanto eu te amo. A minha vida é sua. Por isso eu a dou a você, meu amor...
— Alexander... por favor... Eu te amo! Com todas as minhas forças. Você me fez ser quem eu sou. É o meu caminho, a minha luz, minha estrela. Por quê? Por que fez isso? Você não pode morrer. Você não vai morrer...

Enquanto falava, misturado as lágrimas e a dor, ao sangue, os dois se abraçaram, Thomas tocou delicadamente o rosto de Alexander na esperança de o impedir de partir, como quando eram crianças e queria que ele fizesse algo. Um último sorriso emanou de seus lábios. Seus olhos começaram a fechar-se. Antes de fecharam-se totalmente Thomas o beijou, o beijou como se conseguisse impedi-lo de partir. Em meio ao gosto salino das lágrimas e do ferro do sangue, Thomas pode sentir o doce hálito da vida que deixava o corpo de Alexander.
Vendo toda a cena havia um soldado inimigo, o próprio que matara Alexander. Mas parara sem reação diante da cena. Com lágrimas em seu rosto e a voz embargada disse:
—Me desculpe...
Com um olhar lacerado, de um homem morto, sem vontade de viver, aninhado ao corpo de Alexander, aos prantos, Thomas não desviou os olhos de seu amor e disse ao soldado.
—A culpa não é sua. É da Guerra. Você é apenas uma criança.
O jovem soldado começou a afastar-se quando os tiros recomeçaram. Desta vez vindos dos aliados de Thomas. Sem saber em quem atiravam, devido à chuva e a falta de cor que permitisse distinguir algo, os aliados atiraram em Thomas, em seu coração.

O soldado pode ver Thomas morrer, era impossível descrever, tão forte e vasta era a dor, que ele mesmo se sentiu lacerado. Como em câmera lenta seu corpo tombou sobre o de Alexander, caindo ao seu lado, com suas mãos entrelaçadas e com os rostos muito próximos como a espera de um beijo da eternidade. Foi à última visão antes que um tiro atingisse sua testa e caísse morto. Foi à visão do amor em meio à morte e destruição.







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